Em uma longa estrada, de asfalto, de poeira vinda do cerrado que me cercava, tão longa que só de observar a vontade é desistir.
Mas não foi essa a decisão tomada, em frente segui.
Caminho extenso, doloroso e quente.
Caminho de suor, de cortes e de dor.
Surpresas, frio devastador.
Surpresas, inconsoláveis.
Surpresas superadas.
Caminho de armadilhas, que quando pegam parecem não ter saída.
As pernas cortadas pelo instrumento de caça.
Como imaginar, que realmente um dia é o da caça outro do caçador?!
O que caço então?
Ou melhor, o que procuro?
No início da jornada, era apenas uma estrada, que me levaria para longe da cidade pequena e deserta em que vivia.
No início da viagem, era apenas uma estrada, longa que se perdia na imensidão do céu azul, na imensidão do cerrado queimado e doloroso.
Passos longos e apressados, corpo vivo e entusiasmado. Vida nova!
A esperança combustível, suficiente para a luta.
Luta contra o destino, contra mim mesmo.
Eu queria desistir, lutar para quê, e por quê ? !
Antes de mim, a luta se apaziguava, e virava família.
Antes de mim, a luta ia embora, e a dor criava raízes.
Nasci! E a dor me abraçava em noites de festas, eram olhos cheios e sorrisos desmedidos, falsos e que evaporavam como a fumaça da fogueira.
Eram olhos, eram barreiras, que guardavam imensa dor, calos da lavouras, calos da fome e calos de uma vida sem vida.
Meus olhos começaram a ficar cheios, decidi partir.
A tristeza tentou me segurar, chorou, até prometeu mudar, mas não, parti.
Estrada longa e sofrida, mas teve fim.
Na curva, pude ver todos os prédios e o céu foi se afastando dos meus olhos.
Levantava a cabeça e o céu ia embora, mas era ainda meio dia, e o céu se escondia por trás e pelos lados daqueles prédios.
Prisões ou prédios. Não tinham quintal, não tinham verde, então é prisão.
Onde então as crianças fazem molecagem?!
Nesta tal varanda, que de tão alta, dá medo?!Prisão.
Trabalhei, trabalhei... e trabalhei, o que fazer no sábado e no domingo. Claro que descansar, porque eu trabalhei por demais.
Mas as pessoas daqui, passeam , bebem,dançam, e fazem algo que a muito tempo eu queria. Namoram!
Como namorar?Não tenho ninguém. Penso que ele me olha, mas ele olha para todas. Penso que me escreve cartas se declarando. Talvez declare-se, mas não para mim.
As rosas que um dia eu vi, são entregues em tantas mãos.
As mãos são macias, são delicadas, as minhas já tem calos, que de tão velhos tenho até consideração por alguns, estima, sê sabe né!
Mas sempre chega o dia. O meu foi uma noite, mas valeu, e como valeu.
Ele olhou para mim e eu não olhei, claro, sou mulher descente!
Mas quando ele se distraiu, eu olhei, há! E como olhei!
Forte, alto, sorriso maravilhoso, e foi assim que na minha estrada a felicidade resolveu passar.
O caminho não era outro, se não as escadinhas do altar.
Disse amém eu também. A noite chegou e o medo me agarrou.
Não sei bem se eram os braços do medo ou do meu amor.
Tudo parecia tão igual. A diferença era cheiro, que cheiro bom.
A diferença era o toque, igual rosa me tocou.
Igual rosa me senti. E o medo passou.
Os braços e os toques no inicio pareciam todas as noites, mas depois a peleja fez o carinho cansar. Ele cansou e eu sofri.
Mas chega os presentes, embrulhados em fraldas de pano. Nem sempre com cheiro agradável, mas tudo bem, mesmo assim eu amo.
Veio o primeiro, veio segundo e o terceiro voltou pro céu, tudo bem, melhor com Deus do que com os homens.
O trabalho aumentou, tanto fora como dentro. Me tornei mãe, empregada de fora empregada de dentro, consegui, só não tinha o amor.
Porque ser mulher não é só ser mãe. Os filhos dormem, e a noite pede, e só ouso não.
Ando injuriada, corpo se alimenta e não é só de pão.
Como pode, eu ter vindo de tão longe, de tanta dor, para encerrar minha vida com mais dor?!Isso não.
Sou mulher, e luto para ser feliz, enfrentei os gigantes, e como posso perder a guerra,por causa do desprezo.
Sou mulher, e por isso teve um fim. O que Deus abençoou teve desabençoar, não há como dar continuidade ao que rompida está.
Vida lá vou eu, carrego meus presentes grudados em meu corpo, tatuados em meu coração. Sou digna, sou valente, o pão todo dia eu trago. Jamais algum poderá reclamar de fome de dor.
Se caem, remédio eu dou, se nada posso fazer levo pro dotor.;
Não tive estudo , mas meu presentes tem, e longe irão.
Mas estou viva, e por isso o corpo cansa da fome. Que é amor.
Ele olhou para mim e eu não olhei, claro, sou mulher descente até hoje!
Mas agora também digo o que espero, e o quero. Quero prazer quero ser feliz. Minhas asas usar, e nunca mais permitir que as cortem.
Quero respeito, quero amigo, quero amante, quero um amor.
Quero ser o que preciso ser, mulher livre.
Lígia Oliveira








0 comentários:
Postar um comentário